Resenha de O Lugar – Annie Ernaux

Que bom que Annie Ernaux inaugurou seu próprio gênero literário, a autossóciobiografia. Pois, sem ele, seria difícil, ou quase impossível, definir suas obras. Em O Lugar, a autora francesa fala sobre a vida e a morte de seu pai, dissecando não apenas a dinâmica familiar em que viveu, como também questões de classe e costumes de uma época. E talvez por trazer fatos reais como fio condutor, parece pintar tal retrato de maneira ainda mais precisa.

A temática de O Lugar nos faz imaginar uma obra taciturna, no entanto, Ernaux afasta parte da melancolia ao nos conduzir pela trajetória de seu pai com uma escrita muito direta – que, claro, não apaga a tristeza, mas também não funciona como um catalisador da dor da perda e do luto. E se o estilo característico da autora funcionou muito para mim em Uma Mulher, confesso que, em O Lugar, me distanciou um pouco de tudo o que foi relatado.

De qualquer maneira, é impossível negar a genialidade da obra que consagrou Ernaux e sua autossóciobiografia. É incrível como, por meio da história de um único homem, a autora traça a caminhada de muitos outros e torna possível compreender mais sobre uma geração inteira. E com isso, volta ao íntimo, mostrando os abismos que se formaram entre ela e o pai – nas palavras da própria Ernaux: “Uma distância de classe, mas bastante singular, que não pode ser nomeada. Como um amor que se quebrou.”

E se passei a impressão de que O Lugar não tem partes, digamos, pessoais e emotivas, quero desfazê-la. Afinal, os meus trechos favoritos foram justamente aqueles em que a autora descreve características e trejeitos de seu pai. Detalhes tão pequenos que poderiam passar despercebidos, dissolvidos no dia a dia. Mas é a lente do amor que nos faz enxergar e memorizar essas minúcias, transformando-as em lembranças à prova do tempo e de qualquer abismo.

Título original: La place
Editora: Fósforo
Autora: Annie Ernaux
Tradução: Marília Garcia
Publicação original: 1983

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